Reprodução da internet: Imagem ilustrativa

“Aprendi cedo a me virar sozinha. Tento mostrar isso para os meus filhos. É difícil se a sociedade não te vê, te esconde. A vida não é igual pra todo mundo.”

Silvana Santos Lacerda tem 27 anos e é uma das antigas moradoras do atual aterro sanitário de Aparecida de Goiânia, o lixão. Com o remanejamento das famílias para o Setor Retiro do Bosque, Silvana se viu obrigada a buscar outras alternativas. “Nós vendemos bala no sinal para completar a renda, né. As crianças vem comigo porque não tenho com quem deixar. Meu marido trabalhava, ta desempregado já faz dois meses, só eu estou trabalhando”. Silvana relata a condição de vida das pessoas do setor, o perigo e afastamento da cidade. “Jogaram a gente para um lugar mais longe. Você precisa ver a situação que vivemos. Lá, depois das sete horas ninguém sai [de casa]. É perigoso demais. Meus filhos mesmo, não saem de casa. Eles não tem a liberdade de poder sair e brincar na rua”, desabafa.

Quando as casas foram entregues, Silvana conta que estavam inacabadas, em condições piores que os barracos de lona que moravam. “Eu fotografei tudo. Tinha buracos nas portas, no teto, sem vasos sanitários nos banheiros, faltava tudo. Nós que fomos arrumando. Minha casa era melhor, de lona, mas era melhor. E é perigoso lá, ainda mais morando em casa aberta”. Sem poder deixar os cinco filhos em casa, Silvana diz não ter outra opção senão levá-los para o sinal. “Meu filho ta matriculado no CMEI. Tem uns seis anos que estão construindo, até agora nada. Mas ele estuda, meus filhos vão para escola todo dia”.

Quando chegou a Goiânia, Silvana tinha 11 anos de idade. Vinda do Tocantins, ela morou com a irmã no setor Jardim América durante um ano. “Eu não tenho ninguém por mim, sou órfã. Cheguei em Goiânia com 11 anos, para morar com a minha irmã. Quando eu fiz 12 anos, ela me deixou sozinha na cidade, foi embora com um homem. Eu tive que me virar sozinha. A dona da casa que eu morava me viu chorando um dia, e arrumou trabalho pra mim”. Ainda uma criança, Silvana morava sozinha e trabalhava no período noturno em um restaurante no setor Nova Suíça, fugindo da fiscalização. “Eu trabalhava a noite, chegava em casa por volta das cinco da manhã, dormia um pouco e as sete horas ia para escola. Estudava em período integral num colégio perto do trabalho. Trabalhei nesse restaurante por sete anos”.

Mesmo estudando o dia inteiro, o futuro de Silvana foi o lixão e a reciclagem. “Eu estudava, sabia a importância do estudo. Direto falo para meus filhos que estudar é importante. Eles vão para a escola todos os dias e não faltam aula. Só ficam no sinal comigo porque preciso trabalhar. Eu estudei, mas acho que não tive a oportunidade certa. A vida não é igual pra todo mundo”. Aos 14 anos, Silvana se envolveu com o pai de seus dois filhos mais velhos, Mateus com 10 anos e Ana Carolina, com 8 anos. “Acho que foi uma forma de não me sentir tão só. Já estava me virando sozinha, mas era difícil. Ele falou com a mãe dele, e logo depois fui morar na casa da minha sogra, mas continuei trabalhando e estudando. Fiquei com ele até meus 18 anos. Quando estava com meus dois filhos, terminei nosso relacionamento e fui embora.”

Silvana fala da vida sem mágoas. Conta sua realidade com leveza, brinda a pouca sorte com brilho nos olhos. Guerreira, espera por dias melhores, luta por eles.

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