Dor. Aquela que vai muito além da definição do dicionário. A dor do vazio. Do silêncio. A dor do nada. “Tem quanto tempo que você mora na rua?”. As respostas eram indiferentes, sem significado. “Ah, nem sei mais. Já perdi as contas”. Ronaldo, que tem nome de jogador, nunca entrou em um campo. Nem no da sua própria vida. O jogo foi decidido sem o seu aval. O pênalti dos 45’ do segundo tempo foi batido e ele nem viu. A bola foi pra fora e, Ronaldo, que nunca pegou em uma, nem ficou sabendo. “Minha mãe morreu, eu tinha 9 anos. De lá pra cá, eu tô aí…”. Aí. Em qualquer lugar. No calor, no frio ou na chuva. Ronaldo tá aí. “Fazer o quê? Confiar em Deus, né?”.

Ronaldo cata material reciclável, mais conhecido como lixo. Os passos vãos denunciam a sobrevivência daquele homem que já deixou de viver há muito tempo. “Você tem algum sonho?”. Como se fosse possível sonhar. A realidade, miserável até o último feixe de luz, nunca deixou. “Sonho? Eu? Sei lá!”. Um homem sem casa, sem família e sem sonhos. Um copo que derramou.

Ronaldo guarda pouca coisa na memória. “Você tem alguma lembrança?”. O olhar passeia pelo chão sujo, como quem não sabe onde vai. “Lembrança? Sei lá!”. Dizem que o silêncio costuma falar muita coisa… Aquele não. O silêncio daquele homem não falava. Só doía. Ardia como a garganta dos alcoólatras. Um ardor que já virou costume. Que incomoda mas que, a cada gole, vai se tornando comum. O silêncio de Ronaldo, homem preto, sem sonhos e sem lembranças, faz a garganta de qualquer um arder. Arder de indignação. Arder de tristeza. Arder de raiva de si mesmo. “Beber? Beber eu não bebo, não”.

O silêncio nas palavras de Ronaldo começou a surgir aos 14 anos, quando ele, sem nada ou ninguém, veio parar no chão frio de Goiânia. “Eu só uso droga, só a merda desse crack”. Mais um que a estatística matou e deixou agonizando perto de um carrinho cheio de papelão.

O vazio no olhar daquele homem mostra mais do que é possível enxergar. Mostra a solidão de alguém rodeado por milhares de pessoas, todos os dias, mas que nunca é notado. Mostra o desamparo. Mostra o lado mais cruel das ruas. Mostra a tristeza convertida em aceitação. O silêncio dos desesperados. O olhar vazio de Ronaldo mostra que, tanto quem escreve sobre aquele homem, quanto quem lê, todos nós, sem exceção, fracassamos.

No jogo da vida daquele Ronaldo, todos nós perdemos.

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