O movimento dos carros na avenida disfarçavam o semblante vago do outro lado da rua. Sentada na calçada, ela era daquelas que faz cara de quem não quer nada – mas que o sujeito não se engane! É só a cara. Os olhos dela convidavam. Eram daqueles tipo bomba relógio, você sente tudo em uma tacada só!

PÁ!

“Meu nome é Larissa, sou travesti”, afrontosa, a mulher que nasceu no corpo de homem vive um dia de cada vez. “Eu gosto disso aqui. De ficar solta. Livre”. Sem amarras, Larissa não é da rua, a rua é quem tem o privilégio de tê-la. O olhar debochado prevê cada pergunta antes mesmo delas se verbalizarem. Quando o assunto se vira para seu ganha-pão, ela ri, despreocupada. “Eu não faço nada”.

A Paraense de Tucuruí, região banhada pelo rio Tocantins, no sudeste do Pará, distribui as horas de seu dia entre vigiar carros e – o seu preferido – fazer programas. “Já sou acostumada”. Com 20 anos, Larissa se tornou Larissa aos 18 e, desde então, escolhe a dedo quem terá a regalia de conhecer o céu da boca e dos olhos, a gargalhada e o parque de diversões que ela esconde em baixo do vestido.

A garota (de programa, não! De liberdade!) traz consigo uma cicatriz no pescoço e zomba do perigo. Ela conta dos calos sem esconder os cortes. “Foi briga! Uma qualquer queria roubar meu namorado”. Ela ri. Até parece! “Fui pra cima dela e ela tirou uma gilete”. O fato de ter faltado apenas 2 centímetros para que Larissa tivesse a veia ligada ao coração dilacerada é motivo de vitória. “Até parece que eu ia perder meu homem!”. De fato, Larissa. Até parece! E esse homem?! Ah, coitado. Já foi. É passado!

A mulher do agora vive o calor da rua. Desatinada, desata nós, queima mapas e vibra nas cores das cinzas. Larissa renasce. Dia após dia. Um dia após o outro. E quanto ao futuro?! Coitado! Esse que dê um jeito de acompanhá-la.

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