30 anos após a tragédia, Lourdes das Neves, mãe da menina Leide, fala sobre o maior acidente radiológico do mundo.

Por Anne Ribeiro

Goiânia, 13 setembro de 1987.

Fim de inverno, vésperas de primavera, tempo quente e seco. A época do ano que os ipês sofrem o flagelo do clima severo ao mesmo tempo em que se preparam para ressurgir e aformosar o cenário goiano. Era domingo, inicio de tarde, por volta das 13 horas, quando os catadores de material reciclável Wagner Mota Pereira, 19, e Roberto Santos Alves, 22, entraram em um lote abandonado, onde se encontrava os restos do que um dia foi o Instituto Goiano de Radioterapia (IGR) entre as Avenidas Paranaíba e Tocantins, no centro da capital. Era o início da maior tormenta que Goiânia já vivenciou.

Entre os vestígios de uma clinica desativada, estava o equipamento com o composto químico: Césio 137. Wagner e Roberto se empolgaram com a possibilidade de conseguir uma grana extra, devido a grande quantidade de chumbo que havia na peça. Conduziram a cápsula com o composto químico para a casa na Rua 57 onde a romperam. No dia 18 de setembro, cinco dias após o rompimento da cápsula, a peça foi vendida no ferro velho de Devair Alves Ferreira, situado na Rua 26-A do Setor Aeroporto. Algumas horas depois, naquele mesmo dia, Devair se encantou com o pó azul que brilhava no escuro. Como ele dizia, “me apaixonei pelo brilho da morte”. Deslumbrado, levou o pó azul para dentro de casa e distribuiu com algumas pessoas, entre elas, seu irmão Ivo Ferreira, pai da Leide das Neves, a menina que se tornou símbolo da tragédia.

Leide, tinha apenas seis anos quando ingeriu aquele encantador pó azul sem saber os efeitos mortíferos que aquilo lhe traria. A menina foi à primeira vítima fatal da tragédia. Menina como era, Leide não tinha pretensão de lucrar com aquele pozinho. Porém, seu encantamento pelo pó a deslumbrou. As mãozinhas inocentes brincavam enquanto tocavam a morte. Naquela noite, tocou no jantar antes de lavar as mãozinhas. Quebrando a ordem natural da vida, onde os filhos enterram os pais. 40 dias após a ingestão do mortal e encantador pó azul, Dona Lourdes das Neves Ferreira, 65, enterrou sua menina, sem ao menos poder vê-la para dar o último adeus.

Ainda com efeitos do Césio, Lourdes mostra as consequências do acidente em suas mãos

O caixão pesava mais de 500 quilos, acompanhado pelo de sua tia Maria Gabriela, a segunda vítima fatal do acidente, compunha a cena pesada, em que populares, recebiam a pedradas, e lançavam objetos contra os caixões, e o pior, em direção a uma mãe com o coração dilacerado. Não queriam os corpos radioativos em Goiânia. Esqueceram que foi através delas, a necessidade de investigar aquela peça, que se não tivesse sido parada, teria colocado mais vidas em risco. Sem culpa alguma, perderam a vida e evitou que outros inocentes morressem.

Lourdes das Neves vive sozinha em uma casa simples, no bairro Cidade Satélite, em Aparecida de Goiânia, desde 2003, 16 anos após o acidente, quando seu esposo Ivo Ferreira morreu de enfisema pulmonar. Ivo passou a fumar compulsivamente, “chegava a fumar seis maços por dia”, como relata Lourdes das Neves. Sentia-se culpado por ter levado a morte para dentro de casa. Ela conta também, tropeçando nas palavras, que apesar da falta que ele faz, foi um alívio. Ivo tinha muitas limitações advindas do acidente, quando ele descansou, ela descansou também.

“Minha terapia é cuidar das plantas”

A mãe de Leide das Neves, sobrevive aos problemas de saúde que a tragédia deixou. Além dos impactos do radioativo, sofre os emocionais. Precisaria tomar seis medicamentos de uso continuo, mas com o dinheiro que ganha das pensões, só consegue manter duas. Inclinando a cabeça para a direita, diz não saber as consequências da falta dos medicamentos, e conclui: “Meu cardiologista, fala que é um investimento, mas vou fazer o que, se eu não tenho (dinheiro)?”. O emocional, ela trata com seu hobby: a jardinagem. “Minha terapia é cuidar das plantas”. Fala com sorriso no rosto, enquanto exibe e conta a historia de como cada uma foi parar lá.

Lourdes teve na jardinagem fonte de terapia

Lourdes não quer mais dar entrevistas: foi uma orientação médica. Assim como os ipês, em setembro, ficam difíceis as coisas para ela. A mãe da menina que comeu césio volta à cena. O assedio de repórteres é grande. Tocar no assunto é reviver a aridez da trágica história. Machuca aquela simples mulher, que já carrega as marcas do acidente, e do descaso no corpo e na alma, durante todos os dias do ano.

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