Teria tudo para ser apenas mais uma noite fria na rua. Daniel queria descansar e dormia em sua cama – pedaços de papelão embaixo de um banco de praça. Acostumado com o chão áspero e duro, ele já não se importava mais com conforto. Tinha sua hora para acordar, mas não imaginava que seu despertador fosse um chute de coturno. Quem o acordava da maneira menos convencional que poderia imaginar, eram membros da Guarda Civil Metropolitana. “Tenho pra mim, que eles queriam me matar”, relata. “Batiam em mim, não era só um não. Me deram várias bicudas. Tinha um com aquelas pistola elétrica, sabe?”. A situação ganhou contornos dramáticos quando um dos Guardas sacou uma pistola elétrica. “Ele batia ela na minha cabeça sem dó”.

Daniel sobreviveu. Ainda sobrevive. A rua o ensinou como escapar da morte. E, assim como o Daniel da Bíblia, após ser jogado vivo em uma cova com leões sedentos, Daniel do Carmo, de 30 anos, fugiu como quem foge de uma cova com feras fardadas. “Consegui correr, mas eles apontavam a pistola e falavam: “vai morrer, vai morrer!”

De longe, e já seguro, Daniel observa aqueles guardas travestidos de leões selvagens, queimando suas coisas: roupas, um travesseiro adaptado e pedaços de papelão que usava como cama, em chamas. Daniel alega não ter feito nada. “Esse povo é do mal, é folgado. Acha que a gente é tudo drogado, e aí chega batendo em qualquer um”, lamenta.

Daniel que mora na rua a quatro anos. Em sua cidade, no interior do Mato Grosso, trabalhava na roça, e as vezes, fazia bicos como servente de pedreiro. Sua sina começou quando foi acusado de um crime que diz não ter cometido. “Eu tava com dois brother, lá em casa, no interior do Mato Grosso. Chegaram atirando na gente. Os dois morreram, e eu consegui fugir”. Sua sorte? “Eu pulei o muro, e um tiro pegou na minha perna, a sorte é que eu cai do outro lado do lote.”, diz apontando para a cicatriz. Sua saída não foi outra a não ser pegar o pouco dinheiro que tinha e fugir pra bem longe. “Ou eu era preso por um crime que não tinha cometido, ou os caras me matavam”, relembra.
Eu olho para Daniel, sem acreditar naquela saga, e pergunto sobre sua família. “Meus pais sempre tiveram pouca instrução, vivem simples, não tem condição nenhuma.” Pai de um casal de filhos, a saudade aperta. Quando pergunto deles, a voz embarga. “A mais velha era muito apegada a mim, eu sinto muita saudade”. O caçula, seu xará, sequer conheceu direito. “Ele tem quatro anos. Nasceu e eu já fui embora.”

Pra conseguir uma grana, Daniel lava carros na rua. “Tiro uns quarenta reais, por dia”, conta. “As vezes, eu faço uns bico de servente.” Estamos próximos a uma Igreja Católica. “Quem cuida mesmo de mim, é Deus, é nele que eu confio por estar vivo hoje”, agradece apontando para o templo. Daniel confia que um dia possa voltar para sua cidade, aos braços de seus filhos. A proteção divina o ajuda a evitar conflitos. “Eu sou de boa com todo mundo. Se você não faz pisada, não entra em guerra com os outros caras na mesma situação que você, cê vive de boa. Se alguém me enche, eu abaixo a cabeça e vou embora. Evito problemas”.

O boa praça Daniel, não deseja violência, nem vocifera vingança pra quem já o fez mal, ao contrário. “Vâmo rezar pra eles, né? O mundo tá tão ruim, que a gente tem que rezar pra eles ganharem mais qualidade. Eu sou de qualidade, cê é de qualidade. A gente não pode perder as qualidade que nóis tem, e rezar pra eles não perder as qualidade deles.”

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