A pele negra, cansada, denunciava o estado da alma: lânguida. Os ossos salientes, os pés inchados nos chinelos sujos contavam o caminho. “Meu nome é Moisés, eu moro aqui na rua, mesmo”.
Moisés abriu o sorriso sem dentes quando me viu, “você é da [rede] Record? Eu vou passar na televisão?”, e não soube disfarçar a insatisfação quando eu disse que não passaria. Os olhos curiosos pra câmera, pra mim. Impôs que só aceitaria ser fotografado se sua cadela saísse na foto, “é Madeira, o nome dela. Eu passo lá no depósito [de materiais recicláveis] e ela vem correndo atrás de mim. E ela é braba, viu?”.

Assim, registro a foto: Madeira, Moisés e seu carrinho cheio de garrafas e latas vazias, “isso aqui [materiais recicláveis] não dá nada não, é 20, 30 conto por dia. É melhor manguear [pedir esmola]!”, e mangueando Moisés passa por cima dos absurdos do mundo. “Eles me perguntam se eu fumo droga, se eu bebo cachaça. E eu não bebo, não. Nem fumo”. Sorrindo, sem perceber a gravidade do problema, o herói das ruas conta, “eles falam: “Eu vou te dar, mas é pra você beber, se você for beber eu dou”, e eu digo “vou! Vou beber bem ali” e pego o dinheiro e guardo”.

Sentado ao meu lado, na calçada, Moisés conta das frustrações dos últimos dias. Roubaram seu carrinho, o ameaçam, o agridem, “eu não sou de briga”. Justo, Moisés cresceu nas ruas, mas é adepto do “é melhor pedir do que roubar”, mal sabe ele, que melhor de verdade, seria ser tratado como gente, enxergado como cidadão. No bolso, uma carteira do Goiás, “é meu time!”. Ali dentro, nada além de seu RG. “NÃO ALFABETIZADO”, diz o carimbo ao lado de sua foto 3×4. “Toma, eu não sei ler, mas você sabe”, conto a ele sua idade, “tenho 49, é? E que dia é o meu aniversário?”. Abaixo a cabeça me perguntando qual foi a última vez que alguém parou pra falar com aquele homem. Seu aniversário é em Agosto. 17 de agosto.

Em meio a conversa, Moisés, que tenta parecer forte, desabafa: “Cê podia me ajudar a ganhar um barraco, que é pra eu sair da rua. Eu não quero ficar na rua. Os cara da [avenida] Goiás quer roubar meu carrinho, quer me bater, quer furar eu. Tudo pra roubar os trem da gente e comprar droga. Isso lá é vida?”. Engulo seco, a saliva desce feito pedra. Moisés nem se lembra quando foi que teve uma vida para chamar de vida, “morreu todo mundo, minha mãe, meu pai… Meu pai morreu com uma ferida na perna. Não cheirava, não bebia, não fazia nada. Ia pra Igreja “Deus é amor”. Sabe, a Deus é amor? Pois é, e morreu por causa de uma ferida”.

O homem de sorriso sem dentes esmorece e só volta a sorrir quando fala de seu amor. “Eu tenho uma namorada. Ela mora bem ali, depois daquelas árvores”, e aponta esperançoso para o fim da rua, “eu quero arrumar um barraco pra eu morar com ela. Não posso largar minha mulher, não. Se eu largar a mulher, que dia que eu vou ter um filho com ela?”. Queimado do sol impiedoso, marcado das ruas traiçoeiras, ele ainda acredita no amor e se recusa a ir para abrigos, “morar sem minha mulher? Cê tá doida?”.

Moisés, com as roupas sujas e o cabelo despenteado, se torna cada dia mais invisível àquelas calçadas. Negro, analfabeto, sem família ou conhecidos. Mais um para a estatística que a sociedade criou, matou e deixou agonizando no sinal. Quando me despeço, Moisés faz seu último pedido “Põe eu na televisão, fala com o governo pra mim. Eu quero sair da rua”. Vou embora devagar, as pernas pesam. Os braços e a cabeça doem. O coração chora. Enquanto isso, Moisés sorri, “eu não tenho pressa”.

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