O CUIDAR QUE GANHA EM SE PERDER

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Em uma esquina qualquer da cidade, tiramos um tempo para falar de amor. Não o de Manoel Carlos. Mas o de Camões. Aquele que arde sem se ver. “A ferida que dói e não se sente”. Não é isso que diz o poema?! Cristiano deve saber. Não os versos. Mas o sabor e o cheiro de seu significado.

De Maceió, o homem que carrega as riquezas da alma nos bolsos, mora nas ruas de Goiânia há 2 anos. “Tenho 4 filhas, lá. A vida não é fácil, não. Tenho vontade de voltar, mas não tenho coragem de olhar na cara da minha ex mulher, não”. Cristiano conheceu o amor, aquele sujeito estranho com ar de eternidade, mas que vai embora na primeira manhã em que o sol não aparece. “Tava voltando do serviço e encontrei ela com outro cara, em cima da cama. Da minha cama!”. Depois disso, Cristiano passou a carregar uma casa abandonada dentro do peito. “Deixei a casa pra ela e minhas filhas. Larguei até os documentos, lá, larguei foi tudo e caí no mundo”.

Cristiano sabe que, até um par de asas pode se tornar um peso quando se falta coragem, por isso, partiu. “Elas querem que eu volto, mas eu não tenho coragem, não, tenho medo de fazer uma besteira. Minhas filham me falam ‘a mãe tá lhe esperando’; deixa ela esperar”.

Aos 40 anos, Cristiano deve entender o que o poema diz, quando afirma que o amor “é dor que desatina sem doer”, pois, mesmo em meio ao lado mais ingrato do contentamento descontente, ele paga, para as quatro filhas de 16, 15, 12 e 9 anos, uma pensão de R$ 600. ”Sem casa, serviço, sem recurso, mas pago. Todo mês. Não sei nem como consigo”.

A esmola adquirida há milhares de quilômetros de casa, ainda assim, paga a comida e a escola dos frutos do amor ingrato de Cristiano. “Eu vivo vivendo, né?! Tem uns que ofende, mas é assim, mesmo, tem que pedir, porque roubar eu não vou. Nunca peguei nada de ninguém e nunca hei de pegar”. Assim, nesse desiquilíbrio do amor com o pé na loucura, ele sabe que ainda voltará. “Eu ainda vou voltar. Mas agora não… Só de lembrar a cena que eu vi… Ih! Não gosto nem de lembrar”.

Cristiano vive o hoje em um mundo que não permite o amanhã, por isso, diariamente, olha nos olhos da verdade, “a gente nunca tá só, né?”, e vai passando por cima das ingratidões de cada amanhecer. “Tem gente que tem muito preconceito da gente que vive na rua, mas a gente, dessa terra, não leva nada. Fica tudo.” Assim, a dor tímida no olhar vai dando espaço para o corpo que descascou-se com o sol quente, tornando-se cada vez mais alma. “Se ela aprontou comigo, tudo bem, o pagamento dela há de vir depois”.

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