Os passos cambaleantes, lentos, seguiam ao acaso. A cabeça baixa, os cabelos desgrenhados e a barba por fazer escondiam o olhar cerrado, arredio, “cê quer o quê?”. Eu queria conversar. Comecei perguntando o nome, que veio completo, de pronto, sem pausas, “José da Silva Santos”. Ao seu lado, um colchão enrolado e um cobertor sujo. “Eu bebo cachaça, e não é pouca”.

José, visivelmente embriagado, tem o olhar vago e fala com dificuldade, “só hoje eu já bebi 10 carotinho [cachaça] ou mais”. O bafo fede a vergonha, tristeza, “sou mais viver na rua do que ficar dando vergonha pra minha família. Eu não quero dar trabalho pra eles como eu já dei, não”. Em Goiânia há 23 anos, José, de 38 – que bebe desde os 15 – perambulava pelas ruas há cerca de 15 dias. “Eles [família] não sabem que eu tô morando na rua, não. Se soubessem, iam ficar revoltados demais. Eu não vim pra cá pra ficar nesse mundo imundo”.

As palavras de Zé, até então arrastadas e de difícil compreensão, ganham um outro tom. Ele parecia querer sair daquele estado, “eu quero ir pra uma casa de recuperação, recuperar minha vida”, vida essa, que não foi arruinada apenas pela bebida, “deve ter umas 3 horas que eu fumei [crack]”, pergunto sobre o seu estado em relação a droga, e a resposta é debochada, como se fosse óbvia, “eu não sinto porra nenhuma, não, doido. Não dá ilusão nenhuma mais não”, e, indignado detalha sua trajetória ao lado dela, “eu comecei na maconha, depois cheirei pó, depois veio a porra da merla, fumei merla, depois veio a merda do crack, e eu tô fumando crack”.

Vejo na expressão de José o esforço para conter o choro, que sai mesmo assim, teimoso. O sofrimento é convertido em lágrimas. Ele limpa o rosto e estende as mãos molhadas de dor pra mim, “tá vendo esses calos, aqui? Eu sou borracheiro, eu sei montar e desmontar um carro, tá ligado? Se hoje você precisar de um pedreiro, eu sei como fazer da base até o acabamento”, revoltado, ele vocifera que teve pouco estudo, mas desse pouco, era um dos melhores, “eu nunca tirei menos de 90 [pontos] nas minhas provas” e me desafia a checar. José continua chorando e o meu único desafio ali é não chorar também.

José fala de ser “sujeito homem”, de voltar pra escola e pra casa da família. O único problema é que o vício não deixa, “eu só não sei por que eu não largo essa pinga e essa droga. Mas eu sou inteligente, moleque, não sou bobo, não”. Vejo ali o início da fagulha, o desejo de viver. José, que já tinha se despido da vergonha, responde de pronto ao meu questionamento sobre procurar uma casa de apoio, “se você quiser me levar, eu tô pronto pra ir”, a resposta sai quase como um clamor. Meu rosto arde, as mãos tremem. Pergunto sobre onde ficarão as suas coisas, “minhas coisas vão ficar bem aí onde estão”. Percebo então, que aquela conversa não poderia acabar ali. José foi comigo.

No caminho para a Casa de Apoio Metamorfose, no Jardim Atlântico, José se olha no espelho do retrovisor do carro, “eu tô feio pra caralho, hein?”, ainda chocado com sua aparência, ele conta como foram os últimos dias, “eles [polícia] passam aí e pegam todo mundo. Só não pegam eu, porque eu não devo nada, tô sempre puxando meu carrinho. Não devo nada pra justiça, pra ninguém. Nunca roubei e nem matei”. Em meio à conversa, com José bem descontraído – eu arriscaria em dizer até que feliz – ele muda de assunto, “sou geminiano” e brinca “sabe que eu até tenho vontade de arrumar uma mulher?! Mas a gente tem ter capacidade pra ter elas. Dentinho limpo, roupinha bonitinha… Se for pra ter essas da rua é fácil. Aí eu não quero”.

Entramos no Metamorfose e, em todo momento da conversa com o diretor da Casa, José afirmava “eu quero mudar, eu quero sair dessa vida”. Daquela parte em diante, não era mais comigo. Na minha despedida, José beijava minha mão e agradecia. Eu não sabia o que dizer. Saí dali diferente. O peito cheio, os olhos lacrimejando sem saber se choravam ou se sorriam, mas isso não importa.

José pode começar uma nova vida, agora.

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