“Quem é que quer ouvir a minha história? Ninguém. O mundo tá precisando é de gente feliz, história bonita. Desgraça já tem sobrando. Pra todo canto. A minha é só mais uma.”
Joseane, de 48 anos, resume sua vida em uma única frase: “Sou ex-presidiária”; e assim, limitando a si própria, a mulher de semblante cansado prefere esconder o rosto. Mas apenas o rosto, as mãos deixa sempre à vista. Aprendeu isso na cadeia. Mãos sempre à vista. “Estar em uma penitenciaria é ter a vida pausada, enjaulada. Imagine você, proibida de ir na padaria comprar pão?! Isso pode ser chamado de vida? O sofrimento sempre deixa tudo mais claro pra quem não consegue enxergar sozinho.”

Condenada por roubo e formação de quadrilha, Joseane passou 9 anos presa no Complexo Prisional de Aparecida de Goiânia – CIS Consuelo Nasser. “90% dos problemas desse mundo estariam resolvidos se a gente escutasse o que a mãe da gente fala e seguisse os conselhos que elas dão. Minha mãe falava na época: “Presta atenção com quem você tá andando menina, isso aí vai dar pano pra manga”; mas eu não escutava, não dava valor.”

Por diversas vezes, no tempo em que estava presa, Joseane tentou tirar a própria vida. O motivo? Não enxergava nenhuma saída para aquela situação. Se para ela aquilo não era viver, então pra quê continuar insistindo? “Cada dia a mais, era um a menos. Ali o tempo se arrasta de propósito, só pra ver você ir enlouquecendo aos poucos. As vezes que eu tentei me suicidar foi de covardia. Porque no fundo eu sabia que aquilo ali era bem feito pra mim.”

Sem lutar contra seu castigo, Joseane aceitou a pena, cumpriu cada dia da sentença. De dentro da prisão, viu sua filha crescer e não pôde ir ao enterro de sua mãe, que morreu vítima de um acidente doméstico em 2005. “Sinceramente, não sei como sobrevivi àquilo, só sei que foi mais que o bastante pra aprender que a gente quando quer ter uma coisa, tem que trabalhar e comprar. O que é seu, é seu. O que é do outro, é do outro. Pena que eu demorei tanto pra aprender isso.” Hoje em dia, de ficha suja mas de cara limpa, Joseane comemora todas as manhãs quando volta da padaria com os pães quentinhos na sacola.

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Astronauta frustrada que seguiu no jornalismo. Sempre acreditei no Snape.

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