UMA FOLHA DE ALFACE APODRECENDO DEPOIS DA FEIRA

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“Eu me expresso através da minha arte, eu berro através dela. Canto e danço. Os que conseguem ouvir, à esses eu digo, digo que fui batizado Raul”. Raul Alves tem 46 anos e trabalha nas ruas de Aparecida de Goiânia desde os 28, fabrica colares, pulseiras, dentre outras coisas. Faz parte do movimento hippie. “Essa é a minha arte, tem gente que faz gol, outros constroem prédios… Eu dou personalidade às pessoas. Isso tudo com a minha arte.” 

Raul é conhecido nas ruas de Aparecida como “Mudinho”. “Quando eu perdi minha mãe, e com ela tudo o que eu tinha, passei muito tempo sem conseguir falar. O pessoal cheio da grana chama isso de depressão, e eu não botava fé que existisse. Até que ela bateu na minha porta. É como se todas as suas vontades desaparecessem, até a de morrer. Entende? Tudo tanto faz. Eu vivia como uma folha de alface, daquelas que ficam jogadas no chão depois que a feira acaba”, detalha. 

“Eu não acho que ser surdo é muita desvantagem não, tem muita coisa por aí que a gente deixava de ouvir se pudesse. Essa gente de hoje em dia tem a boca cheia de muita coisa, e a alma vazia. Um bando de almas vazias andando em cima dos sapatos caros.” Dizia seu Raul enquanto trançava seus brincos. 

A perda da mãe fez Raul enlouquecer. Ele não falava, não se alimentava, teve a vida pausada pela insanidade. Depois de ser internado e provar com o próprio paladar todo o amargor da vida, Raul decidiu que estava na hora de se reerguer. “Eu? Eu moro onde me cabe, moro onde dá. Tenho minha barraca na mochila, onde der pra estendê-la, é ali que eu moro”.

Quando questiono o apelido “Mudinho”, Raul ressalta: “Apelido não, esse é meu nome também. Depois que saí da clínica, percebi que ficar em silêncio é mais proveitoso do que responder a ignorância das pessoas. Assim, calado, eu esnobo a crítica das senhoras que passam por mim apressadas, que me julgam sem saber da minha história. Elas não sabem que fui batizado Raul, e me chamam de “mudinho”. Mas sabe?! Eu não sou de todo mudo, não. Eu me expresso através da minha arte, eu berro através dela. Canto e danço. Os que conseguem ouvir, à esses eu digo, digo que fui batizado Raul.”

Raul está nas ruas há 10 anos, ele é mais uma das milhares de histórias espalhadas pelas sombras, pelos becos. Diante de tantos que falam tanto e não sabem se comunicar, Raul aprendeu em silêncio como é dizer para o mundo que ele existe. Que não é só uma folha de alface apodrecendo depois da feira.

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Jornalista, feminista e antirracista;

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